Salton Talento – a história de um vinho brasileiro
O vinho é uma bebida bastante peculiar e cada vinho tem uma história para contar, o que o torna mais interessante e praticamente único. Salton Talento, o mais novo vinho brasileiro, produzido pela Salton e que este mês chega ao mercado brasileiro, nasceu da determinação dos diretores da empresa em produzir um vinho de qualidade internacional, que pudesse ser mostrado com orgulho em qualquer parte do mundo.
Produzir vinhos de qualidade no sul do Brasil não é, de forma nenhuma, uma tarefa fácil. Nossos problemas começam no clima, úmido e chuvoso, especialmente na época da colheita, passando por detalhes de topografia, solo e também pela produção excessiva de uvas, provenientes de parreiras nem sempre muito adequadas para cada microclima específico.
Lidar com estas variáveis requer uma boa dose de paciência, investimento financeiro e muito conhecimento, não só de enologia como também das particularidades de cada recanto da Serra Gaúcha. Para se chegar ao vinho que a Salton um dia resolveu produzir se passaram quase seis anos de muito trabalho e de tomada de decisões nem sempre muito fáceis de serem colocadas em prática.
Voltando um pouco no tempo, para ser mais preciso em 1999, vamos nos lembrar da primeira vez em que Ângelo Salton Neto, presidente de Vinhos Salton e Wagner Ribeiro, diretor-comercial da empresa, chegaram à sede a Associação Brasileira de Sommeliers - São Paulo, para uma degustação, às cegas é claro, de vários vinhos da uva cabernet sauvignon produzidos na Serra Gaúcha. Com seu bom humor habitual, Ângelo adora contar que antes da degustação, tinha absoluta certeza de que estava produzindo um vinho de excelente qualidade e que naquele momento, seu vinho seria um tremendo sucesso. No entanto, as coisas não andaram bem desta forma e seu vinho foi implacavelmente dissecado, analisado e criticado pelos degustadores da ABS-SP, que mostraram todos os defeitos e pontos fracos do vinho da Salton.
Decepção total !!! Ângelo se lembra que ficou arrasado e por um momento, pensou em desistir de produzir vinhos finos e voltar às origens da Salton, produzindo vinhos populares, de baixo custo, grande aceitação e alta rentabilidade, com um mínimo ou nada de novos investimentos. Mas não, isto seria muito fácil e naquele instante, surgiu um enorme desafio, que Ângelo e Wagner se impuseram e depois transmitiram para toda a equipe de Bento Gonçalves, em especial Antonio Salton, responsável pelos vinhedos e Lucindo Copat, enólogo responsável pela produção dos vinhos.
Podemos dizer, sem medo de errar, que a partir deste momento, nasceria uma nova Salton, com o objetivo de produzir vinhos de qualidade e que tivessem um perfil mais adequado às exigências do consumidor. Curioso notar que foi também a partir desta época que começamos a perceber na ABS-SP um grande aumento de pessoas interessadas em fazer cursos de vinhos e conhecer melhor este vasto e desafiante universo, coincidindo com a decisão da Salton de mudar de rumo.
As mudanças
A primeira dificuldade enfrentada pela Salton foi mudar a mentalidade dos agricultores de Bento Gonçalves, em especial no que dizia respeito à necessidade premente de se reduzir o rendimento dos vinhedos, que chegavam a absurdos 150 hectolitros por hectare de uva plantada, um valor incompatível com qualquer pretensão de se produzir um vinho de alta qualidade. No entanto, convencer o agricultor a cortar cachos de uva e jogá-los fora (a chamada poda em verde), se mostrou uma tarefa quase que inexeqüível, tal o grau de resistência às novas práticas viticulturais. Até hoje, isto tem sido difícil e a saída encontrada foi aumentar o pagamento pelas uvas de melhor qualidade, produzidas pelos parceiros da Salton. Nos vinhedos próprios da empresa foi tudo mais fácil, já que a decisão havia sido tomada em caráter irreversível e coube ao agrônomo da empresa, Bianchi, apenas executar as novas diretrizes.
Partindo de uvas de melhor qualidade, as chances de se produzir um bom vinho aumentam consideravelmente e a Salton partiu então para a construção de uma nova vinícola, que pudesse acompanhar o novo ritmo da empresa. E aí novamente a Salton pensou grande. Saiu do centro de Bento Gonçalves, ao lado da igreja matriz (aliás, a única igreja do mundo que tem água benta safrada, guardada em barris de carvalho), onde não havia espaço físico para crescer e mudou-se para a vizinha Tuiuty, pequena e acolhedora, a alguns quilômetros de distância, em terrenos de propriedade da empresa.
A nova vinícola
A gigante vinícola da Salton tem 30.000 metros de área coberta, em 70 hectares de área e foi integralmente construída com recursos próprios. Aliás, não se trata somente de uma vinícola e sim de um projeto muito mais ambicioso, que vai incluir restaurante, e parque temático, com vistas ao eno-turismo, modalidade de lazer cada vez mais praticada em todo o mundo. Na propriedade haverá uma casa de colono com 100 anos de idade e outra com 50 anos, mostrando como era a vida dos moradores da região. Também faz parte do projeto um Museu do Vinho, com equipamentos de diferentes épocas.
Na nova vinícola as uvas já estão recebendo tratamento de primeira, com uso de modernos equipamentos, iguais aos existentes nas melhores vinícolas do mundo. Além disto, especial atenção foi dada aos visitantes, que terão a oportunidade de conhecer todo o processo de produção dos vinhos, percorrendo uma passarela suspensa, que permitirá uma visão privilegiada da vinícola, sem interferir no andamento do trabalho.
Um conceito muito interessante utilizado pela Salton é o de “várias vinícolas sob o mesmo teto”, ou seja, será possível individualizar cada tipo de vinho a ser produzido, dando a cada parcela de uva o tratamento mais adequado para a produção do vinho ao qual se destina. Com isto é possível se praticar uma vinificação minimalista para os melhores vinhos e também tratar os vinhos mais simples com bastante cuidado.
Talento, um marco na vida da Salton
Para a produção do Talento foram utilizadas as uvas da excelente safra de 2002, uma das melhores do Brasil nos últimos tempos, provenientes dos Patamares, vinhedos de mais de 10 anos, localizados em Tuiuty, próximos à vinícola. Estes vinhedos foram totalmente remodelados para se adequar às exigências da empresa, especialmente no que diz respeito ao rendimento, drasticamente reduzido para cerca de 50 hectolitros por hectare.
Os vinhedos se localizam no Vale do Rio das Antas e estão plantados em região montanhosa, de solos pedregosos, ligeiramente ácidos e pobres em matéria orgânica.
Nesta região o clima se caracteriza por ter invernos rigorosos e no período de amadurecimento das uvas há um bom diferencial de temperatura entre o dia e a noite, com dias ensolarados, que propiciam o desenvolvimento adequado de matéria corante e bom teor de açúcar e noites frias, o que permite um amadurecimento lento e gradual, com perfeita maturidade dos taninos.
Em 2002 a Salton sentiu a necessidade de contratar um consultor que trouxesse uma nova visão para os vinhos da empresa. A escolha recaiu sobre Angel Mendoza, enólogo de grande prestígio na Argentina, que havia trabalhado por longos anos na tradicional vinícola Trapiche. Junto com Lucindo Copat, Mendoza definiu a composição do vinho, com cabernet sauvignon (60%), merlot (30%) e tannat (10%), que foram vinificadas separadamente, a temperaturas que não excederam 25o C, com um período total de fermentação e maceração pós-fermentativa de 30 dias. Após a fermentação foi feita a mescla, que foi colocada em sua maior parte em barricas novas de carvalho francês das florestas de Allier, produzidas pelos melhores toneleiros da França. Uma pequena parcela do vinho foi colocada em barricas de carvalho proveniente do Leste Europeu e cerca de 20% permaneceu em tanques de aço inoxidável, para preservar a integridade da fruta. O vinho permaneceu no carvalho por 12 meses, à temperatura de 10o C e umidade controlada em 75%. Foi engarrafado em dezembro de 2003 e será comercializado em setembro de 2004, após 9 meses na garrafa.
Degustando o Salton Talento 2002
O Salton Talento 2002 se mostra com cor rubi, de boa intensidade e exibe deliciosos aromas de frutas escuras em geléia, com notas de especiarias e carvalho tostado. Na boca mostra-se com boa concentração, corpo médio e bastante persistente, com acidez refrescante em perfeito equilíbrio com o álcool. Seu retro-olfato é intenso, evocando frutas e chocolate, com elegante tostado final.
Arthur P. Azevedo
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