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Vinhos do Brasil - Parte I - Região da Campanha

Novidades
6/Abr
2015
Vinhos do Brasil - Parte I - Região da Campanha
André Logaldi

A região da Campanha se situa no extremo sul do país, cobrindo áreas fronteiriças com Uruguai e também com a Argentina (Uruguaiana), possuindo por séculos uma vocação pecuarista.



Mas a história fez com que novos ventos soprassem por lá. Assim, as pastagens outrora vistas em Uruguaiana, Santana do Livramento, Bagé, Candiota e Dom Pedrito por exemplo, hoje estão cobertas de vinhas. 

São 11 municípios que se renderam a partir dos anos 90 aos bons preços pagos pelas uvas, que graças ao bom clima (apesar de ainda seguir o padrão subtropical úmido), exultavam qualidades, criando uma nova demanda. Levando-se em conta que a região toda tem aproximadamente o tamanho da Bélgica, se vê porque pode se expandir como um novo "paraíso vinícola"!

Apesar de historicamente contar com vinhedos implantados no fim do século XIX, a Campanha ficou viticulturalmente adormecida até 1973 quando Harold Olmos, pesquisador da Universidade da Califórnia Davis, identificou a região baseando-se em estudos de zoneamento vitícola, como de grande potencial e viabilidade para o plantio de uvas viníferas, o que culminou na implantação da Almadén em Santana do Livramento e do Projeto Santa Colina (grupo japonês), nos anos que se sucederam.

Hoje a paisagem cultural está bastante modificada em função desta orientação para a fruticultura, muito especialmente o cultivo de uvas, em expansão acelerada de acordo com dados do Cadastro Vitícola Brasileiro coordenado pela Embrapa desde 1995. Com uma demanda por uvas maduras e sadias em alta, produtores da Serra Gaúcha não só passaram a se abastecer como sonharam em instalar-se na Campanha. E foi o que aconteceu!

Foram chegando grandes empreendedores da Serra Gaúcha, como Miolo e Salton, cooperativas como a Nova Aliança e a local Vinoeste de Uruguaiana, além de projetos de profissionais da área como o Cordilheira de Santana e outros grandes empresários de ramos diversos e/ou apaixonados por vinhos tais como nos projetos da Dunamis e Guatambu. A estimativa de crescimento entre os anos de 1995 e 2012 foi de 166%, contando hoje 1300 hectares de videiras.
Os trabalhos de zoneamento permaneceram e através de trabalho sério e profissional da Embrapa, seguem permitindo a identificação de áreas e cultivares que se adaptam bem ao terroir, propiciando as bases para a máxima exploração do conceito de identidade dos vinhos resultantes.

De acordo com o perfil bioclimático, baseado no Anuário de Vinhos do Brasil, a Campanha só não é mais quente do que o Vale do São Francisco (que pertence a outra classificação climática, tropical seco). Aliás, a Campanha é a região de melhor índice de insolação e a menos úmida de toda a zona meridional do país, considerando as 5 grandes regiões vitivinícolas brasileiras de clima subtropical (Planalto Catarinense, Campos de Cima da Serra, Serra Gaúcha, Serra do Sudeste e a própria Campanha). 

Como possui noites de caráter "temperado", com razoável frescor, ostenta boa amplitude térmica, fundamental para a qualidade das uvas e vinhos! Situada na verdadeira região dos Pampas, ainda goza de bons ventos, como o famoso Minuano. 
Num resumo climatológico e comparando com regiões já bem consagradas, a Campanha Gaúcha poderia ser pareada a Jerez (em insolação e frescor noturno, sendo porém quase três vezes mais úmida). Possui índice de insolação superior a Napa Valley e Santiago do Chile por exemplo.

Os solos são graníticos e argilosos sendo que a alta proporção de argila em Bagé resulta em uvas mais aromáticas, de acordo com alguns especialistas (Evan Goldstein é minha referência). Além disso, áreas de textura arenosa permitem boa absorção de umidade, não criando obstáculos ao uso de tratores, porque secam relativamente rápido.

O desenho geográfico, predominantemente plano ao contrário da ondulada região do Vale dos Vinhedos, permite uma facilidade de mecanização da colheita, o que também torna a região bastante atraente em função da cada vez mais difícil mão-de-obra qualificada.

Destaques para algumas variedades, em especial a Tannat e a Cabernet Sauvignon entre as tintas e a Gewurztraminer e Viognier dentre as brancas. Do ponto de vista organoléptico, obedecendo ao perfil climático, os vinhos possuem um teor alcoólico natural superior aos da Serra Gaúcha, uma acidez menor porém suficiente e uma certa sapidez, relacionada àquela sensação de salinidade que alguns terroirs que dão vinhos minerais proporcionam.
Para finalizar, está previsto o projeto de implantação até o começo de 2016 da "Indicação de Procedência" e futuramente uma "Denominação de Origem" para vinhos finos e espumantes da região da Campanha! Em vista do desenvolvimento viticultural e vinícola que assistimos, o processo está em andamento.

Sem dúvida uma das novas e mais promissoras regiões para o vinho brasileiro, com exemplares de boa tipicidade, caráter frutado, equilibrados e gastronômicos. Em minha opinião puramente pessoal: o Brasil tem muito a ganhar se não tentar recriar vinhos de concursos de perfil "blockbusters". Nosso aparente ponto de equilíbrio pode não chamar tanto a atenção mas pode ser muito mais cativante à boa mesa, que sempre foi o lugar de honra dos bons vinhos!


Fonte: André Logaldi